Maresias troca mansões por condomínios

Praia paulista ícone de ricos e famosos no anos de 1990 e 2000, Maresias vive uma transformação urbanística visível logo na entrada com uma profusão de placas de “vende-se” -são 14 delas só na avenida principal.
Por trás dessa mudança, está a nova destinação de terrenos de antigas mansões e baladas na beira da praia. Comprados por investidores e incorporadores, eles vêm sendo desmembrados para virar condomínios de luxo, que chegam a ter de quatro a mais de dez residências.
Tiveram esse destino nos últimos anos, por exemplo, uma área antes usada para festas por uma rádio de rock e também o espaço do antigo Bar do Meio, onde, no fim do dia, se encontravam os jovens que horas antes haviam aproveitado as ondas da praia de vocação surfista.
Maresias fica em São Sebastião, no litoral norte, a 191 km de São Paulo. Ali, diversas áreas de mansões na avenida principal também viraram condomínios. Um exemplo é o Champs Maresias, empreendimento que tem o campeão mundial de surf Gabriel Medina como dono e seu garoto-propaganda.
Com seis unidades, fica em um terreno que antes abrigava uma dupla de casas amplas e uma quadra de tênis.
A configuração do conjunto ilustra um novo conceito de casa de veraneio. Na arquitetura, linhas retas, com lajes planas substituindo telhados, o que resulta em custo menor e mais praticidade, explica a arquiteta Verônica Naviskas.
E, em vez de áreas comuns, piscinas privativas e quintais para cada uma das casas.

IMAGEM
Além de prometer privacidade e segurança, a estratégia de venda passa pela propaganda de uma nova imagem de Maresias, mais ligada à família e menos à noite -demanda antiga de comerciantes. “Aqui sempre vai ter agito, mas você só consegue ter sucesso imobiliário se visar a família, porque o jovem não tem poder aquisitivo”, afirma o consultor Iván Boljover, responsável pela comercialização do Champs.
Um importante público do mercado imobiliário local, afirma o consultor, são os jovens que antes frequentavam a balada e, agora, estão voltando para aproveitar a praia com os seus filhos.
Não que a vida noturna em Maresias tenha acabado –longe disso. Baladas e bares, como o Squina e o Parador, continuam a atrair jovens com música, cerveja e drinks (além de churros, açaí e sorvetes veganos).
A diferença é que, agora, também aparece por ali o público que curte, por exemplo, o cantor Wesley Safadão.
O autor de hits como “Camarote” tem apresentação marcada para o fim do ano no Sirena, antigo reduto de música eletrônica que juntava jovens endinheirados da elite paulistana a celebridades, muitas vezes com DJs estrangeiros no comando da pista.

BALEIA
A mudança de perfil da balada em Maresias ocorreu simultaneamente à consolidação da praia da Baleia, ali perto, como o principal refúgio de empresários e industriais no litoral norte paulista.
Na Baleia, uma casa “pé na areia” dificilmente sai por menos de R$ 10 milhões. Maresias segue atraindo milionários, mas, ali, uma unidade em um condomínio pode custar metade desse valor.
“São perfis diferentes. Se você é da alta sociedade paulistana, é quase obrigatório ter uma casa na Baleia, uma em Campos do Jordão, claro que no bairro de Capivari, e outra em Miami. Já Maresias é mais ‘lifestyle'”, afirma Boljover.

CRISE
Esse estilo de vida que deu fama a Maresias desde o fim dos anos 70, com a abertura da rodovia Rio-Santos, nem sempre é suficiente para convencer potenciais compradores a colocar a mão no bolso por uma das casas por ali.
Na própria avenida principal, à beira mar, uma residência com mil metros quadrados de área construída está à venda há mais de dois anos –para corretores, isso se deve justamente à falta de procura por mansões de mais de R$ 10 milhões naquela área.
A longa espera para a venda, no entanto, tem sido comum em Maresias nos últimos dois anos, afirma uma representante da imobiliária Lucio Zahoul que pediu para não ser identificada.
O tempo médio para um imóvel à venda mudar de dono, que antes era de um ano, pode chegar agora a quatro.
Ela atribui a situação a três fatores. Em primeiro lugar, à crise econômica, que castigou o mercado imobiliário em todo o país. Em segundo, à resistência de proprietários em reduzir o preço das casas, vistas como investimento.
A terceira explicação que ela dá é o desgaste que a fama da balada causou a Maresias. “Barra do Sahy e Baleia conseguiram ficar mais preservadas”, avalia.
Dono da Alpha Litoral, que funciona como imobiliária e incorporadora, João Manoel Bulhões diz que, de fato, a crise impactou os negócios.
Segundo ele, em 2017 vendeu oito casas em Maresias, quando, em anos bons, o número superava dez. Para efeito de comparação, o site da empresa lista 77 anúncios de venda apenas nessa praia.
Ainda assim, ele continua a investir na compra de terrenos e na construção de casas à beira mar com, claro, lajes, piscinas e quintais privativos –que, mais tarde, costumam ser equipados pelos proprietários com barco, jet ski e quadriciclo. “Para quem pode comprar uma casa pé na areia, nunca há crise”, diz Bulhões.

(Folhapress)
Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress