Exposição recupera a memória da ditadura brasileira

Movimento estudantil de 68 / Sexta-feira Sangrenta na cinelânida (Rio, 1968) - Foto: Evandro Teixeira

O Centro Universitário Maria Antonia da USP inaugura, no dia  3 de novembro, a exposição MemoriAntonia: por uma memória ativa dos direitos humanos A mostra é composta por obras de artistas que se debruçam sobre os 21 anos de ditadura no Brasil (1964-1985) e por fotografias de Hiroto Yoshioka e Orlando Brito, com curadoria do professor Márcio Seligmann-Silva e do pesquisador Diego Matos.

O título da exposição remete a outra mostra, A alma dos edifícios: MemoriAntonia, que aconteceu no mesmo local em 2003, reunindo os artistas Horst Hoheisel e Andreas Knitz, da Alemanha, Marcelo Brodsky, da Argentina, e Fulvia Molina, do Brasil. Nessa época, a USP recebeu de volta o edifício Joaquim Nabuco, que integra o conjunto original da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e que, durante o período da ditadura, abrigou a administração carcerária na cidade.

A diretora do Centro Maria Antonia, Lucia Maciel Barbosa de Oliveira, explica que a intenção da mostra MemoriAntonia é “produzir um movimento crítico neste momento difícil em que a democracia está tensionada no Brasil e as forças conservadoras ganham terreno”. Segundo ela, “a defesa dos valores democráticos e de sua permanente invenção – ideais que forjaram a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), parte da vocação do Maria Antonia, são evocados na mostra a partir de obras potentes e de imagens icônicas que reafirmam a memória como processo permanente de construção e reconstrução que responde às inquietações do presente e abre a imaginação para pensar o futuro.”

A nova exposição cria um espaço de recordação do passado ditatorial, que permite contextualizar os fatos da assim chamada “Batalha da Maria Antônia”, ocorrida nos dias 2 e 3 de outubro de 1968, produzindo empatia e abrindo canais com outras temporalidades com o público. Para tanto, obras de diversos artistas visuais serão apresentadas ao lado de documentos e documentários sobre a época. O curador Márcio Seligmann-Silva recorda que os artistas visuais perseguidos durante aquele período investiram em um trabalho artístico de denúncia e resistência extremamente importante. Por outro lado, depois de 1985 “em sua maioria, afastaram-se desse tema.” Ele destaca ainda que “devemos lembrar que a transição para o período democrático deu-se com a participação dos mesmos políticos integrantes no regime de exceção, sofremos com a ausência de julgamento dos crimes contra a humanidade e com uma política do esquecimento, que foi transformada em um revisionismo político descarado, que tenta imprimir tons positivos àquele período nefasto. No entanto, existe uma nova onda de artistas que na última década se voltou a esse tema e que mostra uma necessidade e um desejo na sociedade de se voltar àquele momento crucial, que está sendo vítima de uma brutal falsificação com intuitos político-eleitorais. Eles fazem parte dessa mostra, ao lado de membros da resistência histórica do período da ditadura”, salienta. 

Seligmann-Silva salienta também a necessidade de se localizar os eventos ocorridos em outubro de 1968 na Maria Antônia tanto no contexto de outras ações do aparato de segurança da ditadura e de milícias que a apoiavam, como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), como também no contexto mais amplo da guerra fria. Nesse sentido, ele destaca que “não devemos falar de uma ‘Batalha da Maria Antônia’, mas, antes, de um ataque orquestrado à USP, dentro de uma tentativa de desestruturar este espaço de educação crítica e de resistência ao fascismo que era a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP”.

O pesquisador e também curador Diego Matos ressalta que, no contexto desta mostra de longa duração, para além de um rico material de reconstituição histórica e crítica do que foi o movimento de resistência no contexto da “Batalha da Maria Antônia”, “é fundamental comentar a possibilidade de colocar em aproximação e diálogo a produção de artistas e intelectuais que vivenciaram os fins dos anos 1960 e os anos de chumbo pós-AI 5 com as novas realizações de uma jovem geração de artistas, mais desassombrada, que mergulhou na memória tangível daquele período”. Matos esclarece que “no primeiro caso, é a arte como conceito, desmaterialização, construção de novas representações e formas de circulação. Já no outro, entre os mais jovens, constrói-se uma prática de prospecção crítica amparada por linguagem desenvolvida e sofisticada pela anterior”. E completa: “ao meu ver, esta exposição só é possível por acontecer em um ambiente de debate público, a Universidade de São Paulo. É na esfera pública em que as múltiplas vozes silenciadas nas últimas décadas ganham lugar de escuta e ação”.

A mostra contará com um projeto de acessibilidade, com audioguia descritivo e vídeos com legenda em português, e com a previsão de ampliação para os próximos meses.

São artistas de diferentes gerações que integram a exposição: os experientes Carlos Zilio, Cildo Meirelles, Claudio Tozzi, Evandro Teixeira, Fúlvia Molina, os jovens Gilvan Barreto, Jaime Lauriano, Laís Myrrha e Rafael Pagatini, os fotojornalistas Hiroto Yoshioka e Orlando Brito, as professoras Leila Danziger e Giselle Beiguelman, o argentino Marcelo Brodsky, o coletivo formado por Roney Freitas, Isael e Sueli Maxacali e o cineasta Renato Tapajós.

Núcleo MariAntonia do Museu da Pessoa

Em 2020, por meio de um edital, o Centro Maria Antonia tornou-se um núcleo do Museu da Pessoa. Seis depoimentos de pessoas que viveram a época da ditadura, e têm seus destinos entrelaçados à história do MariAntonia inauguram o núcleo. São eles: Hiroto Yoshioka, estudante de arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), que registrou episódios da Batalha da Maria Antônia; Fúlvia Molina, artista que integrou a exposição em A alma dos edifícios, em 2003, e ex-aluna da USP no período militar; as professoras da USP, Maria Cecília Loschiavo dos Santos, organizadora da obra Maria Antônia: uma rua na contramão, Ermínia Maricato e Adélia Beserra de Menezesex-alunas da USP na ditadura e Alípio Freire, militante do movimento estudantil e preso político.

Um pouco de história

O edifício Rui Barbosa, onde se localiza o Centro Universitário Maria Antonia, foi construído em 1930, originalmente como parte do Liceu Nacional Rio Branco. Em 1949, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP ocupa o prédio, e outras faculdades da universidade, bem como outras instituições, compunham uma base efervescente da vida universitária no centro da cidade de São Paulo.

Em plena ditadura, nos dias 2 e 3 de outubro de 1968, aconteceu um confronto, protagonizado por alunos da USP e do Mackenzie e por policiais militares, conhecido como a Batalha da Maria Antônia, que resultou na morte de um estudante secundarista, dezenas de feridos, além da depredação do prédio da USP, hoje o edifício rui Barbosa.

Em 1991, os prédios do conjunto começaram a ser devolvidos à USP e, em 1993, o edifício principal, o Rui Barbosa, foi reaberto como Centro Universitário Maria Antonia. Em 1998, o edifício Joaquim Nabuco foi devolvido também sem condições de uso  e passou por reformas, sendo inaugurado em 2017, e integrando o centro cultural, com novos espaços expositivos e auditório.

Serviço

Onde |  Centro Universitário Maria Antonia – Edifício Rui Barbosa

Rua Maria Antônia, 294 – Vila Buarque – São Paulo, SP (próximo às estações Higienópolis e Santa Cecília do metrô)

Quando A partir de 3 de novembro de 2021

Visitação | segunda a sexta (inclusive feriados), das 9 às 20 horas, sábados das 10 às 18 horas Fechado aos domingos

(obrigatório uso de máscara de proteção individual e apresentação de carteira de vacinação contra covid, com ao menos uma dose)

Classificação | Livre

Quanto | Grátis

Informações | (11) 3123-5202