Técnica para carne de laboratório avança. Mas o bife é suculento?

Foto: Lukas/Pexels

O maior bife criado em laboratório no mundo foi revelado este mês pela empresa israelense MeaTech 3D. Na imagem distribuída à imprensa, parece semelhante a um pedaço de carne convencional, mas há dúvidas quanto ao sabor e à textura do produto. O tamanho (110 gramas) representa um passo à frente de concorrentes que investem no desenvolvimento de diferentes técnicas para produzir alimentos de origem animal como alternativa à pecuária tradicional.

O bife da MeaTech 3D é composto de células reais, de músculo e gordura, derivadas de amostras de tecido de vaca. Células-tronco (que têm o potencial de originar qualquer tecido vivo) bovinas são colocadas em biorreatores (sistemas que mantêm a temperatura e todos os nutrientes que as células precisam para se multiplicar e se diferenciar em gordura e músculo).

Em seguida, elas são colocadas sobre uma matriz de colágeno e levadas à impressora biológica para adquirir forma tridimensional. Mas o bife, com várias camadas desse tecido celular, ainda está longe dos supermercados. Em 2022, a empresa pretende começar a vender células de gordura para a criação de outros produtos.

“Esse avanço é resultado de mais de um ano de esforços nos nossos processos de biologia celular e engenharia de tecidos de alto rendimento e em nossa tecnologia de bioimpressão”, disse Sharon Fima, CEO da MeaTech 3D.

A empresa também prepara linhagens celulares para a criação de carne de porco e de frango.

A carne cultivada a partir de células requer aprovação regulatória antes de ser vendida ao público – o que ocorreu pela 1ª vez no fim de 2020, quando a empresa americana Eat Just passou a servir nuggets de frango a clientes de Cingapura.

Sem sacrifício

Em países como Holanda, Portugal e Espanha, iniciativas tentam produzir carne cultivada em células para atender à demanda de quem rejeita a ideia de sacrificar animais. “Produzir células e fazer material capaz de gerar algo semelhante à carne não é o desafio mais complexo”, diz Flávio Vieira Meirelles, pesquisador de terapia celular animal da Universidade de São Paulo (USP). “O mais difícil é garantir que todo o processo feito em laboratório seja isento de produtos de origem animal. Isso ainda não acontece.”

O professor explica que o cultivo celular ainda depende do uso de fatores de crescimento e fontes de proteína obtidas de animais abatidos, o que pode desagradar ao público que as empresas miram. E salienta que o avanço anunciado pela MeaTech 3D não é um bife como conhecemos. “Se a foto não fosse tão produzida e mostrasse o bife cru, seria mais esclarecedora”, afirma. “Do ponto de vista nutricional, teoricamente terá o mesmo valor da carne porque é feito a partir de células animais, produzidas em condições ideais.”

Brasil

Duas grandes empresas no Brasil têm interesse nesse mercado. Com planos de lançar o produto no País até 2024, fabricado aqui ou importado, a BRF investiu US$ 2,5 milhões na Aleph Farms, uma das companhias israelenses mais avançadas nessa tecnologia. A JBS investiu US$ 100 milhões na compra de 51% de uma empresa europeia que desenvolve produto semelhante.

“O objetivo dos grandes produtores de carne ao fazer investimentos é não ficar de fora de algo novo e passar uma imagem positiva ao público ao demonstrar que busca formas alternativas ao abate animal”, diz Sérgio Pflanzer, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Estudo de Pflanzer e colegas estrangeiros, publicado em outubro na revista científica Foods, avaliou a opinião de 4,4 mil pessoas no Brasil sobre carne de laboratório. Do total, 66% disseram que provariam e 60% afirmaram que aceitariam comê-la regularmente.

Mas só 5% aceitariam pagar um pouco a mais por ela. “Qualquer alimento no mundo só emplaca e se torna popular, se for acessível. Não adianta dizer que é ecológico, saudável, amigo ou mais bonito.”

Ressalvas

Outro argumento para fontes alternativas de proteína animal destaca as emissões de gases de efeito estufa da pecuária. Antes de dizer que a carne em laboratório pode poupar o ambiente, é preciso considerar alguns fatores.

Biorreatores usados nesse desenvolvimento consomem grandes quantidades de energia elétrica. Se ela for produzida a partir de combustíveis fósseis, a conta da redução do impacto ambiental pode não fechar.

Em Israel e Cingapura, países mais avançados na criação de carne cultivada, 96% da energia elétrica depende da queima de combustível fóssil, como gás e óleo. No Brasil, por causa das hidrelétricas, essa taxa é 14%.

Considerações semelhantes precisam ser feitas sobre o consumo dos chamados análogos vegetais ou hambúrgueres “plant-based”, que imitam aparência e sabor da carne. “A produção vegetal emite menos gases do efeito estufa que a produção animal, mas a alimentação sem carne baseada em produtos vegetais industrializados pode produzir a mesma quantidade de gás carbônico que a pecuária”, diz Pflanzer.

É o caso, por exemplo, do hambúrguer feito com proteína de ervilha, vindo da China de navio, para venda aqui.

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