Covid: metade das cidades não teve ajuda federal para testar cidadãos, diz estudo

“Não há testagem aleatorizada. Ela é quase dirigida”, afirmou o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), César Eduardo Fernandes. “Assistimos acenos dessa política sem a efetividade que gostaríamos. Somando todos os testes que foram feitos aqui, não conseguimos testar nem metade da população. Admite-se que a incidência aqui é de que a cada 10 pessoas, 3 foram testadas. Em Portugal, o mesmo indivíduo foi testado duas vezes.”

Para o médico sanitarista e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) Claudio Maierovitch, a disseminação da covid poderia ter sido menor se o País tivesse implementado a testagem em massa. Seria possível, segundo ele, compreender a dinâmica da doença para antecipar decisões, como no caso da crise do oxigênio em Manaus, há um ano.

“A gente só fica sabendo desses acontecimentos depois que o desastre já aconteceu”, disse. “Certamente já havia uma epidemia em grande escala em Manaus, mas isso só virou uma questão pública importante quando começou a faltar vaga em hospital e a faltar oxigênio. Se houvesse uma política de testagem facilitada, teria sido possível saber o que estava acontecendo.” Há um ano, a rede de saúde da capital amazonense colapsou diante da explosão de internados pelo coronavírus.

Diretrizes

O plano nacional de testagem prevê que a aquisição dos exames rápidos de antígeno cabe à Secretaria de Vigilância Sanitária (SVS), do Ministério da Saúde. Segundo o documento, os testes devem ser aplicados tanto em indivíduos sintomáticos quanto assintomáticos.

“O Ministério da Saúde distribuirá os TR-AG (testes rápidos de antígeno) para a realização das estratégias de testagem, contudo, os Estados, o Distrito Federal e os municípios também podem adquirir TR-AG para fortalecer a estratégia de testagem em larga escala”, aponta o plano.

Na avaliação de Maierovitch, o Ministério da Saúde é o responsável por comandar a política nacional de testagem. “O Ministério da Saúde, assim como não teve política para enfrentar a pandemia, não teve política de testagem, que seria um dos componentes importantes no enfrentamento”, disse. “Cada Estado pode ter uma política, cada município, mas o alcance é muito mais restrito, especialmente porque o ministério é quem tem atribuição e capacidade para adquirir uma grande quantidade de testes para fortalecer os laboratórios públicos ou mesmo os serviços ambulatoriais. O poder de Estados e municípios para isso é menor.”

Bons exemplos

Especialistas ouvidos pelo Estadão apontam a Coreia do Sul e o Reino Unido como dois locais onde as políticas públicas de testagem deram certo. Maierovitch lembra que aos primeiros sinais de que a covid se transformaria em uma epidemia, o governo sul-coreano chamou as empresas da área de diagnóstico e deu incentivos para que elas desenvolvessem tecnologias para testagem.

“Quando chegaram os primeiros casos, já havia disponibilidade enorme de testes”, relatou o ex-presidente da Anvisa. “Na Inglaterra, tem postos públicos em que as pessoas podem retirar certa quantidade de testes e elas se testam mais de uma vez, inclusive. Cada pessoa retira uma caixinha com sete testes. Faz o próprio teste, repete no dia seguinte para ter certeza, testa seus familiares. Dependendo do caso, ela pode solicitar pela internet e receber em casa.”

O autoteste, popularmente usado nos Estados Unidos e países da Europa, Ásia e América Latina para detectar a covid, ainda não tem registro para ser comercializado no Brasil e depende de regulamentação. Como mostrou o Estadão, o governo pediu à Anvisa uso de autoteste para covid como “ferramenta de apoio”.

Plano

A criação de um plano nacional de testagem foi anunciada por Queiroga no começo de seu trabalho à frente do ministério, em março do ano passado. Ouvido pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid (CPI), no Senado, por duas vezes, o ministro afirmou que colocaria a política em prática “no mais breve espaço de tempo possível” para “testar até 20 milhões de brasileiros por mês”.

“Pretendemos e já pactuamos no Conass e Conasems uma grande campanha para testagem no Brasil”, disse Queiroga, em depoimento à comissão no dia 8 de junho.

Carlos Lula diz que o plano foi inteiramente elaborado pela Saúde. Segundo o presidente do Conass, a entidade foi ouvida “pro-forma”. “A gente propôs muita coisa e simplesmente foi desconsiderado. Então, a gente considera que não participou dele Não teve nem retorno por parte do Ministério na sua elaboração. A gente não pode dizer que foi um plano elaborado a várias mãos”, afirmou.

Mauro Junqueira avalia que o “orçamento finito” não permitiu a compra de uma quantidade maior de exames. “Temos R$ 3,90 por habitante/dia para cuidar da saúde da população, para fazer tudo Desde um teste até um transplante de órgão”, afirma.

Para Maierovitch, a testagem deveria ter sido parte de uma política interministerial, por meio da qual o governo brasileiro chamaria as empresas para conversar e ver de que forma elas poderiam colaborar com a crise. “Não dá para o governo agir apenas como um comprador. Isso aconteceu com vacina, aconteceu com testes, com equipamentos”, disse. “Isso tudo tinha de estar sobre a mesa de forma prioritária, mobilizando vários ministérios, inclusive, não apenas o Ministério da Saúde.”

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