Com instalações anti-Trump, dupla de artistas faz peregrinação em ônibus

Os artistas Mary Mihelic, 41, e David Gleeson, 53, compraram um ônibus. Mas não um qualquer.
O veículo é todo azul, leva o nome do presidenciável republicano em letras brancas gigantes na lateral e pertencia ao movimento “Mulheres por Trump”. Aposentado, foi posto à venda no site Craigslist.
Mihelic e Gleeson deram US$ 14 mil nele e fizeram algumas adaptações. O sobrenome de Donald Trump foi readaptado para “T.rump”. “Rump é um jeito educado de dizer rabo em inglês”, diz Mary à reportagem.
Também remete a T.Rutt, o coletivo artístico da dupla. O batismo é uma corruptela de R.Mutt, como Marcel Duchamp assinou sua obra mais clássica, um urinol de louça, 99 anos atrás.
Percebe-se rapidamente que o lugar de Trump, para o duo, é a latrina histórica.
A frente do ônibus agora tem a frase “Hasta la vista, Donny”, junção de um apelido para Donald e a famosa fala de Arnold Schwarzenegger em “O Exterminador do Futuro” -em 2017, o ex-governador da Califórnia substituirá Trump no reality “O Aprendiz”.
“Também colocamos um ícone que diz ‘A maioria escrota’, referência a grupos ultraconservadores que afirmam ser ‘a maioria silenciosa’ dos EUA.”
Se Trump já defendeu uma prática de tortura que simula a sensação de afogamento, os artistas ironizam a ideia com outro adesivo: “Poupe água. Afogar apenas segundas, quartas e sextas”.
Do lado de dentro, um pequeno santuário. “Porque sou católica, e ninguém mexe com meu papa”, afirma Mary, lembrando de desavença de Trump com o papa Francisco.
VOCÊ É LEGAL?
Os artistas já rodaram 30 mil quilômetros EUA afora -o equivalente a dois bate-voltas de São Paulo a Nova York. Uma das paradas foi Jacumba Hot Springs, vilarejo californiano com menos de mil habitantes.
Lá, implantaram um outdoor. Mas não um qualquer.
“Are you nice [você é legal]? ( ) Sí ( ) No.” A múltipla escolha está estampada num outdoor a poucos metros da cerca que divide EUA e México -e que Trump promete fortalecer e ampliar.
A pergunta encara o lado mexicano. Para quem vê o painel pelo ângulo americano, a questão é outra: “Were we nice [fomos legais]? ( ) Sí ( ) No”.
Mesmo o atual governo não tem sido legal com os imigrantes ilegais –Barack Obama deportou mais de 2,5 milhões deles, mais do que qualquer outro presidente.
No outdoor em Jacumba, eles penduraram trapos de colchas velhas achados pela região. “Quando mexicanos pulam a cerca, amarram esses panos em seus sapatos para disfarçar suas pegadas e confundir os guardas que vêm atrás deles”, afirma Mary.
A bordo do T.rump, eles dizem fazer um “protesto pacífico” em comícios republicanos. Nem sempre são bem-vindos. “Já gritaram ‘atirem neles’, ‘caiam fora da América’.”
No site do coletivo T.rutt, uma galeria de fotos mostra a reação das pessoas ao ônibus, que de longe parece ser um legítimo veículo da campanha de Trump. Tem o motorista que lhes dá o dedo do meio, a inscrição rabiscada com chave na lataria (“porco nazista”) e o pentagrama satanista pichado na lateral.
Eles já haviam erguido uma paródia do muro de Trump no mesmo local. Empilharam 52 blocos de cimento e, numa grade na frente, aprisionaram flores secas, frutas murchas, produtos de limpeza e jardinagem, um cartaz gigante da campanha de Trump e uma bandeira americana.
São símbolos da mão de obra mexicana no país, sob perigo se o republicano levasse para a frente a promessa de deportar 11 milhões de imigrantes ilegais.
A motivação, segundo a dupla, “foi a atitude sem-vergonha e divisiva de Trump em relação a estrangeiros. E seus eleitores não pensaram direito no impacto econômico e social para vidas americanas.”
Alguém removeu a obra de lá. “Não temos a menor ideia de quem. Apenas desapareceu.”

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, ENVIADA ESPECIAL
JACUMBA HOT SPRINGS, EUA (FOLHAPRESS)