ONG seleciona garotas da periferia de SP para tratamento dentário

Era tarde de sábado (11), num casarão na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, onde 17 estudantes universitárias brancas, de direito e psicologia da FGV e Mackenzie, moradoras dos Jardins, Moema e Brooklin, bairros nobres da capital paulista, esperavam outras 17 meninas.
Estas eram mais novas, de 10 a 19 anos, e vinham de Taboão da Serra, Itaquera, Butantã, Campo Limpo e Brasilândia, nas bordas da cidade. Suas famílias sobrevivem com até três salários mínimos e grande parte é negra.
Diferente do sorriso aberto e bem tratado das primeiras, o segundo grupo apresentava sérios problemas dentários. Cáries, canal, dentes quebrados e dificuldades para falar mantinham suas bocas fechadas, por vergonha ou dor.
“Doía demais, nem conseguia comer direito”, conta Paula Santos, 11. Sua história se repetia na casa de Manuela Shiavone, 10. “Tinha muita cárie, tomava remédios para dor por não ter dinheiro para o dentista”, recorda-se, enxugando lágrimas.
Em abril, as meninas de periferia foram selecionadas para tratamento odontológico gratuito da Turma do Bem, ONG que reúne dentistas voluntários. Nesta quinta-feira (16), elas exibiram sorrisos metálicos, com aparelhos para corrigir os dentes, em baile de debutante que marcava novo encontro entre as realidades antagônicas.
A ocasião é o “Oscar” anual da ONG, em Poços de Caldas (MG), que premia o profissional mais engajado, com presença da clientela estrelada do dentista Fábio Bibancos, criador da Turma do Bem.
As universitárias fizeram mutirão para arrecadar vestidos para as debutantes, que escolheram suas madrinhas.
“Eu nunca tinha usado um vestido assim”, disse Rafaella Fernandes, 13, sobre o modelo azul, de escamas. “Me senti especial e bonita.”
Suelen Medeiros, 15, descreveu o momento como “sonho”. “Quando botei o longo, não acreditei. Me sinto empoderada”. A palavra, ela aprendeu há pouco e ganhou novo significado: “É me achar bela ao olhar o espelho”.

NADA DE PRINCESA
A valsa com príncipe não fazia parte do roteiro da noite. A ideia era mostrar que mulheres podem vencer obstáculos sozinhas e cuidar umas das outras. “Ser feminista é poder usar um vestido e ter autonomia sobre isso”, diz Fernanda Teodoro, 23, estudante de direito que convenceu colegas de faculdade a doar os looks de gala.
Pelo WhatsApp, as garotas pediam conselhos às madrinhas. “As dúvidas vão desde como estudar para a prova até o que fazer quando o namoro esquenta e ela não quer ter relação”, conta Fernanda.
Ela levou a irmã, Gabriela, médica residente em pediatria na Unifesp, para falar com as meninas sobre sexualidade. Um tema que entrou na pauta quando a ONG percebeu que os meninos arrumavam emprego após melhorar o sorriso. Já as meninas arrumavam namorados e engravidavam precocemente.
Na sede da Turma do Bem, um casarão com jardim de inverno, obras de arte e piso de mármore, a residente tirou dúvidas sobre ciclo menstrual, entre risadas gerais.
Uma cochicha: “Ela não sabe o que é OB”. Surgiam questões como: “Homens têm algum tipo de menstruação?”.
Outra delas confidenciou a razão de não ter ido ainda ao ginecologista: “Tenho vergonha, não gosto de ninguém me tocando, ainda mais naquele lugar. Como vou mostrar minha fazedora de xixi?”
Segundo Gabriela, falta orientação médica de um jeito aberto e didático. “A gente vê que muitas delas engravidam e isso quer dizer o quê? Que estão transando sem preservativo, em meio à epidemia de sífilis e Aids.”
O apadrinhamento entre grupos de origem social e idades diversas ganha importância à medida que a intimidade aumenta. “É muito bom ter uma amiga para compartilhar angústias, ainda mais se é outra mulher com um pouco mais de experiência.”
O grupo também bateu papo com Vânia Ferrari, palestrante em grandes empresas e autora de livros sobre carreira. Ela falou para uma plateia que até pouco tempo não compartilhava sonhos. “Onde você quer estar daqui a dez anos?”, indagou a publicitária. No início do projeto, a resposta mais ouvida era “não sei”. A influência das madrinhas fez com que entrar numa faculdade virasse meta das mais jovens. Entre os cursos almejados estão medicina, direito e pedagogia.

‘AGORA ELA SORRI’
O impacto na autoestima das meninas mudou também a rotina da família. Pais orgulhosos diziam em uníssono: “Agora ela sorri”. Meninas que fugiam de foto, hoje abrem sorrisos para selfie. “Mudou 100%”, avalia o manobrista Elias Félix, 43, pai das irmãs Mayara e Tainara.
A princípio, o projeto só atenderia meninas até 18 anos, mas Mayara fez a ONG mudar de ideia, ao aparecer com seu “aparelho fake”.
Os dentistas resolveram incluí-la na lista junto com a irmã, quando viram sua boca inchada e ouviram o relato de que gastava um pote de dipirona “jogando no dente a noite toda”. “Fiquei quatro anos com o canal aberto. Uma médica me machucou, e não voltei por medo”, conta a jovem de 19 anos.”Meu aparelho não tinha os ‘ferrinhos’. Eu usava por moda, né? Mas agora fiquei mais bonita. Só dou risada o dia inteiro.”
O mesmo relato se repete com a avó de Ingrid Ferreira, 12. “Era o sonho dela tratar os dentes”, conta Beloni Salete Lisboa, 56, sobre a neta vaidosa, que gosta de se maquiar, mas nunca sorria.

(Folhapress)
Foto: Divulgação