Fumaça de incêndios florestais na Sibéria chega ao Polo Norte

A Sibéria, uma das regiões mais geladas do mundo, enfrenta os incêndios florestais mais graves de sua história. A Rússia luta contra mais de 190 focos que fecharam aeroportos e estradas, forçaram a retirada generalizada de pessoas de suas casas e provocaram uma nuvem de fumaça tão extensa que atingiu o Polo Norte.

Até certo ponto, incêndios florestais são parte do ciclo anual da Sibéria. Cientistas, porém, notam o efeito direto do aquecimento global nos eventos registrados neste ano. Equipes especializadas tentam conter focos das chamas desde maio, mas autoridades temem que o fogo esteja saindo do controle.

No sábado, a Nasa informou que a fumaça dos incêndios em Yakutia (região da Sibéria) “percorreu mais de 3 mil km, chegando até o Polo Norte, o que parece ser o primeiro caso na história documentada”. Imagens de satélite da agência europeia de monitoramento atmosférico mostraram que a nuvem de fumaça cobriu mais de 5,1 milhões de quilômetros quadrados.

“Durante anos, autoridades e formadores de opinião disseram que incêndios são normais, que a taiga está sempre acesa e não há necessidade de se colocar isso em questão. As pessoas estão acostumadas”, disse Alexei Yaroshenko, especialista em silvicultura do Greenpeace. A taiga é um cinturão de floresta de coníferas ao redor do planeta, entre 50 e 60 graus ao norte da Linha do Equador.

Para a Rússia, há dois tipos de incêndios na Sibéria: o tipo que as autoridades estão combatendo e os outros que estão permitindo que queimem. Isso porque a região é tão vasta que grandes incêndios podem queimar sem ameaçar qualquer grande assentamento, sistema de transporte ou infraestrutura.

Os incêndios na Sibéria são maiores do que os registrado na Grécia, Turquia, Itália, EUA e Canadá juntos, com analistas alertando que este ano pode superar o pior ano de incêndios da Rússia, em 2012.

Mais de 8,6 mil bombeiros, agricultores, soldados e outros trabalhadores de emergência estão lutando contra incêndios florestais que queimaram mais de 161.350 quilômetros quadrados desde o início do ano, de acordo com o Greenpeace. Essa é uma área quase duas vezes maior que a Áustria – e maior que o Estado do Ceará.

Autoridades locais dizem que precisam de mais voluntários e dinheiro para combater os incêndios, ao mesmo tempo em que deixam 69 incêndios queimarem porque são muito difíceis de combater ou não ameaçam casas ou infraestrutura econômica. Esses incêndios queimaram quase 20 mil quilômetros quadrados – quase 10 vezes mais a área atingida pelo devastador incêndio em Dixie, na Califórnia.

Cerca de metade das florestas da Rússia são deixadas desprotegidas pelas autoridades regionais, principalmente por conta do financiamento inadequado para o combate ao fogo, segundo Yaroshenko. “Essas florestas têm um papel muito significativo na regulação do meio ambiente”, disse. “A maior parte das florestas em áreas desprotegidas fica no extremo norte Elas crescem muito lentamente, são muito sensíveis e, se queimarem, o impacto é enorme.”

Na terça-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, determinou que fosse redobrado o esforço para controlar os incêndios em Yakutia, ordenando ao Ministério de Situações de Emergência que aumentasse o efetivo encarregado de combater o fogo na Sibéria.

Apesar da resposta, o governo russo vem sendo alvo de críticas por ter cedido aviões de combate a incêndios para Grécia e Turquia. Além disso, especialistas criticam a falta de confiabilidade dos dados divulgados pelo governo. Segundo Yaroshenko, autoridades regionais tendem a maquiar as estatísticas para evitar problemas com seus superiores em Moscou

“Os funcionários simplesmente mentem sobre a escala disso, deturpam os dados intencionalmente, porque cada funcionário é responsável por garantir que haja uma bela imagem”, disse ele. “Em geral, não é mais possível esconder o fogo, pois todos podem ver o que está acontecendo com as imagens de satélite, mas o hábito existe.”

Aisen Nikolaev, que governa a região de Yakutia, disse que as mudanças climáticas são a principal causa dos incêndios. “Estamos vivendo o verão (Hemisfério Norte) mais quente e seco da história das medições meteorológicas desde o final do século 19”, afirmou. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)